5.4.16

O filho de Magda (3)

Diz que o filho de Magda foi sempre muito enojado. Franzia-se todo por qualquer mau cheiro, arrepiava-se com as caganitas dos pombos na soleira e, até casar, quem lhe despiu as meias foi a mãe, porque a ele repugnava o próprio suor. Quando a mulher pariu as gémeas, coisas lá da sua imaginação devem ter-lhe perturbado os sentidos porque foi-se afastando, fugindo ao toque dela, amolecendo o braço com que lhe amparava cintura, espaçando as desajeitadas provas de afeto. Na hora de dar a mama, ele de cara virada, escondido atrás de um jornal. A mudança das fraldas, que vómito! E a nudez das pequenitas, que derretia a mulher e pedia mil beijos nos refegos, nas plantas dos pezinhos e nos gomos do peito, era um constrangimento quase dor. Estava no seu direito. Então não é dos livros que os homens são mal talhados para certas demonstrações de carinho? O seu amor era focado, responsável, atento aos prazos de pagamento, às paredes da casa, à estabilidade da família. Não esperassem que visse poesia em animalidades. E se as respeitava, era mais pelo medo de se intrometer no que desconhecia e lhe parecia avassalador, do que por amorosa consideração. Digo eu que, de ouvir e me espantar com os factos, fui-me entretendo no esboço dos sentimentos.
Com tanto nojo aos delírios de pele e aos odores do corpo, pergunte-se de que artes se terá socorrido para fazer os filhos. Talvez as mesmas que o mantiveram hirto e frio quando o patrão, desbocado pelo tinto num jantar da empresa, à queima-roupa e sem propósito: Jorge Manuel, você até nem é mau homem mas falta-lhe brilho, está-me a compreender? Dessa vez, lembrou os conselhos da mãe e sorriu, medroso e servil, para os colegas que testemunharam a humilhação. Dando assim a outra face, pelo menos não haviam de ter o que dizer dele.