15.4.16

Mães

Foi há largos anos, na Terra Quente Transmontana, andava o Outono a matizar a natureza com os tons do cansaço. A casa onde havíamos de pernoitar pertencia a uma família pequena, que nos acolheu cobrando o preço justo pelas comodidades e oferecendo bónus em simpatia. Eu ia carregada de esperança, levava no ventre pouco mais que um feijão, e, conversa puxando conversa, a dona da casa acabou por intuir a minha gravidez ainda sem evidências. Então, uma afeição nasceu, espontânea, e estendeu-se a todos os que estavam comigo. E onde era suposto apenas dormirmos, porque para mais não havia condições nem tabela de preços, acabámos por comer. À mesa se acrescentaram quatro cadeiras e se reuniram, assim, duas famílias. Durante os dias seguintes, entre boa comida e conversa melhor ainda, a dona da casa presenteou-me com fruta da época, compotas acabadas de fazer, mimos e palavras que só as mães dão. Agora precisa de comer por dois, dizia. Uma ignorância que vem de longe e se perdoa pela generosidade que vale. Estendia-me taças de romãs que preparava só para mim e parecia ter ela mais consolo nisso do que eu a lambuzar-me.
Assim me foi enchendo o estômago e o coração, emocionada com a minha gravidez, o meu ventre invisível, o meu filho incompleto. Só compreendi o apego e o excesso de cuidados quando ela, numa manhã, nos confessou que lhe morrera uma filha, já fazia alguns anos. Um brutal acidente no IP4, durante a viagem de regresso da faculdade para o fim de semana em família. Os dias nunca mais foram iguais. Tinha mais um filho, mas desde quando uma vida compensa outra que se foi? Fosse a sua menina viva e teria a minha idade, era assim o seu género e tudo. E depois, não tardaria muito, eu seria mãe e que mãe não se enternece com o nascimento de outra mãe? Durante algum tempo falou sobre a sua dor, divagando em torno de adjetivos imprecisos, insistindo que o dicionário não contempla certos estados de alma, ainda que vasculhado sílaba a sílaba. 
No último dia, enquanto preparei o saco e carreguei o carro, ela andou às voltas na cozinha e, à despedida, deu-me, ainda fervente, mais um frasco de compota de pera. Comi-o na viagem, com os dedos, até não haver sobra. Ao fim de algumas horas, estava de novo no Porto, onde a minha mãe cumpria com serenidade o quotidiano, alheia à iminência da própria morte, que marinava já no seu ventre de seis frutos.