26.4.16

Liberdade

Há muito que não tenho, com o senhor Pereira, um encontro que mereça relato. Ou porque ele anda menos espirituoso ou porque o que diz tem passado ao lado das minhas inflamações crónicas. Ontem, porém, talvez o feriado e o bom tempo o tenham espevitado e tenham reacendido em mim algumas sensibilidades. Vendo que pela fresquinha da manhã já andávamos no laréu, perguntou-me se íamos comemorar a liberdade. Qual liberdade?, perguntei. Não esperava que ele compreendesse a ironia, tampouco era meu desejo provocá-lo ao ponto de encetar debate. A única intenção era escapar ao absurdo da pergunta. Ele reagiu sem novidade: uma gargalhada superior, uns olhos ternos, paternais, e, por fim, a sentença já esperada.
- Vocês, jovens, não têm cultura nenhuma nem valorizam nada!
O mais novo, que volta e meia se mete a ler coisas impróprias para a idade e gosta de se exibir, puxou-lhe pela manga da camisa:
- Por acaso sabe quem foi o primeiro presidente da república da liberdade?
Primeiro, o senhor Pereira fez-se muito hirto e fugiu com os olhos, numa atrapalhação evidente. Mas depois, o riso vivo e ansioso do mais novo, com os dentes definitivos ainda por acomodar, enterneceu-o. E nessa ternura viu a tábua para se salvar da humilhação:
- Uma delícia, este seu pequenito! Uma delícia!
Ia repetindo isto e ganhando distância, desceu o passeio, atravessou a rua com acenos de despedida e, meio aos ziguezagues, acabou por atracar na mulher que o esperava na esquina oposta, adorando uma montra de vestidos de cerimónia. Seguiram de braço dado, como dois elos de uma corrente empedernida, ferrugenta, que nenhuma revolução é capaz de quebrar.