6.4.16

Ginásio

No grupo de mulheres que a meio da manhã desce para fumar um cigarro, há uma que tem a liderança: é a mais queixosa, a mais egocêntrica, a que mais ironiza com a própria vida, fazendo das desgraças graças. As outras não falam se ela não falar, acomodam-se num silêncio que é de subserviência, esperam mote, autorização. Superior, ela encosta-se ao muro, fecha os olhos para receber o sol, aparenta indiferença mas a verdade é que está a cismar lá por dentro, em busca do que dizer para que as outras fechem o círculo ao seu redor. De repente, ai, era quem me desse agora uma caminha. Como se tivesse dito grande coisa, as outras desatam a rir e vão-se aproximando.
- Tens sono?
- Se tivesses um puto comó meu, que dorme de dia e quer baile de noite!
Riem outra vez, seguem-na com os olhos aguardando que desenvolva e lhes dê mais trela. Às vezes ela não dá, limita-se a mudar de lugar sabendo que, como massa homogénea e amorfa, as outras a acompanham. Sentar-se-ão onde ela se sentar. Levantar-se-ão se ela se levantar. Apagarão o cigarro assim que ela apague o dela. Outras vezes, mais espirituosa e inspirada, ela desfia o rol das suas desventuras maternais, sempre as mesmas, coisas menores, roupa bolçada, sopas rejeitadas, birras na hora de ir dormir, jornais rasgados. Soubesse ela que a maternidade era isto e tinha fugido a tempo para as Caraíbas, deixava o catraio com os avós antes de o amar ao ponto de não suportar mais de duas horas sem lhe ouvir a voz. Nascera para a preguiça e o prazer. Mas, quê?! A sorte não queria nada com ela. Se ao menos fosse rica! As outras continuam a rir, acham-lhe uma graça desproporcionada, anseiam pela próxima palavra, pelo queixume seguinte. 
- E o pai?
- Mas que esperas tu de um pai? Quer dizer, que esperas tu de um homem? 
Gargalhadas. Tomara eu ter um riso tão fácil como estas mulheres, por dá cá aquela palha entusiasmam-se, dobram-se, agarram-se ao estômago, contorcem-se, até se engasgam com o fumo.
- E agora que passa a vida no ginásio... só pensa naquilo... tem lá uns objetivos...
- Parece que os homens andam todos com essa mania...
- Olha, e eu nem percebo para quê... Não há lá máquinas que desenvolvam o cérebro!
Foi a tirada do dia, talvez a da semana. Unem-se as mulheres contra a raça masculina com toda a pujança, já lhes falta o ar de tanto rir. Como de outras vezes, o segurança espreita, desaquietado pelo bulício. Ao fim do dia, estas mulheres estarão tão exaustas de rir que se hão de deitar mansas, frágeis, vulneráveis, repousando a cabeça no peito desses homens que desprezam, gozam e insultam, falando docemente, amando sem reservas, morrendo de medo da solidão.