8.4.16

Frases feitas

O meu patrão é um homem de frases feitas e o pior das frases feitas nem é o facto de não acrescentarem nada, mas a impossibilidade de as contradizer. Hoje, por exemplo, começou o dia lembrando que ninguém dá nada a ninguém, tudo se paga e assim calou o interlocutor e encerrou a conversa. Saiu vitorioso, inchado de razão. No dia em que abandonei uma reunião a meio e lhe apontei o dedo, acusando-o de estar a cometer uma terrível injustiça, respondeu-me com outra frase feita: a vida é injusta. Eu estava de pé, ele sentado, eu estava firme, ele de cabeça baixa, eu conhecia os factos, ele estava na ignorância, eu tinha a razão, ele tinha falhado. E, ainda assim, a frase feita deitou-me por terra, desarmou-me, venceu-me. Vi-me ao comprido, rendida, com a lâmina do óbvio encostada ao pescoço, engolindo em seco.
Nas horas quentes, no cume de uma discussão, uma frase feita é aquela pobreza terrível que nos deixa mudos, a afirmação do circuito inquebrável, o raio de luz súbito que nos cega. Para contrariar quem as diz, só obrigando a reviver, a nascer de novo, a olhar a vida de outro modo.
Também eu, ontem, diante do trágico, sem chão ou palavra original que valesse e desse amparo, dei comigo a dizer uma frase feita: a esperança é a última a morrer. E para me contrariarem, para me mostrarem que a verdade é outra, era preciso obrigar-me a reviver, fazer-me nascer de novo, ensinar-me a olhar a vida de modo diferente.