5.3.16

Uma valente poda

Nunca se subestime o que se passa dentro de um salão de cabeleireiro. Pode sempre revelar-se mais do que aquilo que as frivolidades aparentam.
Esta manhã, ao entrar, a cabeleireira recebeu-me com calorosas festas, mas logo avançou para o ralhete. Não tinha jeito nenhum estar sem aparecer desde setembro, os cabelos não podem andar tanto tempo sem cuidados, muito menos quando se usam assim compridos e soltos. O costume, expliquei, só corto o cabelo na proximidade dos equinócios. Se isso era crendice, perguntou. Nada, são só alturas em que me acho mais disposta às mudanças. Não tinha mal algum, garantiu-me ela, o que eu devia era passar lá mais vezes para cortar as pontinhas, digamos, fazer a poda. Os cabelos são como as plantas, se não forem podados de tempos a tempos estragam-se, debilitam-se, as raízes adoecem, e depois só com tratamentos especiais. 
Eu não queria ofender a cabeleireira, por isso não lhe disse que me limito a duas visitas anuais porque me custa estar ali, perturba-me aquele excesso de vida, o turbilhão de emoções fortes que à volta de tudo rodopia. Hoje, por exemplo, fiquei a saber que a enteada da Zézinha está a divorciar-se e que esse facto tem sido causa de muitos desatinos entre ambas. A Zézinha diz que está farta, a vida toda a enteada lhe causou problemas, aturou-os com a firmeza de uma rocha e o sangue-frio que nenhuma mãe teria, o divórcio foi a gota de água. O que lá vai lá vai, mas é difícil esquecer a noite em que ela foi parar à esquadra por causa de um saquinho de erva, mais a vez em que se descobriu que tinha desistido do curso de direito e marinava em segredo a transferência para as belas-artes, já para não falar de quando se envolveu com um rapaz casado e foi a mulher dele lá a casa ajustar contas. Uma vergonha, tudo uma vergonha!
- Não é que eu dê valor a isso, mas o sobrenome dele ficava-lhe tão bem...
- Então, Zézinha? O que importa é que ela seja feliz!
Surpreendente, esta tirada da cabeleireira. Assim pareceu, pelo entusiasmo que colheu em todo o salão. Só a Zézinha se dobrou, deixou cair os olhos nas franjas da écharpe e penteou-as melancolicamente com os dedos:
- Ela não quer ser feliz. Tem outros interesses...
Soube também que o filho da manicura já se livrou das fraldas, pelo menos durante o dia. Quem está feliz é o pai, diz que agora há mais um homem lá em casa. O seu marido diz isso?, pergunta a Zézinha. Empertigou-se a manicura, que não era marido, era companheiro, a ela ninguém havia de a acorrentar pela via de papéis e registos, isso era antigamente. A gente amamo-nos e isso é que conta. Conta, mas o casamento sempre aperta mais o laço, avisa a cabeleireira.
- Ora, é isso que eu não quero! Assim se um dia descobrir que ele me engana, é menos trabalho para lhe virar as costas e sair porta fora.
- Mas então estás a contar que ele te engane...
- E havia de contar com o quê, Gracinha? Se eu não conhecesse os homens...
Quando entrou a Joaninha, rapariga à volta dos trinta, o sururu abrandou como se a presença dela impusesse moderação.
- Então, Joaninha?
- Então, Gracinha? O seu rapaz já se decidiu?
- Era bom, era... Na semana passada queria ser arquiteto, hoje já acordou a cismar em ser mecânico de automóveis. Não sei quanto tempo mais vai andar nesta indecisão, não faz nada, põe-se a pé ao meio-dia, vê filmes, vai tomar café, volta, vê mais filmes, à noite é copos com os amigos, miúdas... O que isto tem de bom é que quando eu chego a casa ele já fez o jantar, é só sentar-me e comer. Mas dá-me cá uma angústia vê-lo tão inútil, ao Deus dará.
- Vai ver que um dia de repente acorda... sei lá, isso às vezes é das pessoas muito inteligentes. Não se contentam, pronto!
- Olha, e a tua mãe como vai?
- Acamada. Já nem me conhece.
- Mas fala?
- Só disparates, até palavrões...
Embarga-se a voz da Joaninha, a cabeleireira faz-lhe um mimo:
- Tens de ser forte, filha. Que vens fazer hoje?
- Só lavar e secar, tenho um jantar de aniversário. O meu irmão diz que fica com a minha mãe.
A Joaninha deita a mão à trança negra que lhe cai até ao estômago, puxa o elástico e, com uma dedilhação muito rápida e ágil, liberta uma cabeleira de impressionar. A outra interrompe-me o corte, recua, espanta-se, faz-me girar a cadeira de modo a pôr-me de frente para a Joaninha:
- Está a ver, menina? Esta Joaninha... Está ou não está a precisar de uma valente poda?
Olho a Joaninha de alto a baixo, não a tinha visto com olhos de ver. Muito sóbria e escura no vestir, o peito encolhido, o olhar embaçado, toda ela um acanhamento de juventude mal vivida. Os cabelos assim tão compridos, envolvendo-a como o manto de uma viúva, negro, espesso, pesado, tanto podiam ser desleixe como promessa ou gosto que quisesse dar a alguém, até a si mesma, se bem que não parecesse rapariga de amores-próprios.
- Credo, Gracinha! Uma valente poda, não. Estou habituada assim. Acho que nem ia conseguir olhar-me ao espelho.
- Oh Joaninha, depois de uma poda como deve ser, uma mulher fica como nova! Mais brilho, mais frescura, mais leveza...
- Deixe estar assim. Só mesmo um jeitinho com o secador.
Nos outros não sei, mas neste salão de cabeleireiro todas as mulheres se tratam com diminutivos. Exceção abre-se para a dona Maria Isabel, mais pelo respeito que mete o seu enorme poder intelectual do que pelo avanço da idade. Mas hoje a dona Maria Isabel não estava, para fechar a conversa com chave de ouro como é seu uso e explicar que uma valente poda é quando apetece a cada um e não quando os outros presumem necessária. 
A mim chamam-me só menina. Creio que nunca disse o meu nome. Quando vou com os meus filhos, olha a menina e os meninos! E está muito bem assim.