16.3.16

De mal com a vida

Foi embora o senhor Casimiro, o porteiro de mil olhos, mil braços e voz doce, o único que conheci disposto a pôr-se de cócoras para falar com as crianças de igual para igual, ciente de que não é pelo tamanho que se ganha respeito e autoridade. Não lhe terão renovado o contrato, sina infeliz que é de muitos os que andam ao serviço do estado, desmerecedores de poiso certo, de confiança, mendigando a própria dignidade. Por dois meses não houve porteiro. No controlo das entradas e saídas revezaram-se as funcionárias de outros pelouros, as da cantina, as da limpeza e as do apoio às atividades curriculares. 
Depois, veio o senhor Tomé. 
À primeira vista, achei-o seco nos modos e entrevi na dureza das suas feições uma história de carências, desamores e amarguras. Falsamente hirto e seguro, desapossado de emoção, às crianças nem bom dia nem boa tarde, nenhum esgar, nenhum gesto. Impressionou-me ainda a maledicência que lhe fui ouvindo sobre pais e mães, falando a uns nas costas de outros, zombando dos bons automóveis, dos saltos altos das senhoras, dos modos ariscos da miudagem, e com isso distraindo-se de quem entrava e de quem saía. Lembrei-me de como o senhor Casimiro poupava na conversa fiada para poder ser um mãos-largas no cuidado e na atenção às crianças. O mais novo deve ter intuído os meus pensamentos, que não partilhei porque evito orientar os meus filhos pelos desânimos que sofro. Chegando à escola, mais compassivo do que incomodado, à boleia de um beijo sussurrou-me: este homem está de mal com a vida
Julgo que aprendeu a expressão com o mais velho, que há três ou quatro anos chega a casa queixando-se que os professores andam de mal com a vida. Tento pôr água na fervura, que é preciso compreender, dadas as condições em que trabalham, o stress, as metas, o insuportável bulício da canalha. Mas logo ele me fala da cozinheira da cantina, mulher pequenina e enérgica, sorria tanto que até dava luz, quanta paciência e alegria numa pessoa só, ali enfiada numa cozinha, atrás de um balcão, o cheiro a comida entranhado na roupa e nos cabelos, os ouvidos saturados das esquisitices, das indecisões e da gritaria infernal que se propaga até onde a fila termina, tudo isso por quanto ao fim do mês? Que eu havia de a ter conhecido, diz-me ele. Só pode ser gente feliz. Era ela quem, às escondidas, lhe triplicava a dose de sopa e lhe trocava as batatas por mais pepino e honestamente lamentava quando ele se queixava que aquilo não era peixe, era glomérulo de espinhas. Chamava-lhe meu querido, e como isso pode fazer o dia num lugar que é selva, distância, desumanização!
Infelizmente, também a cozinheira foi embora este ano. 
E este vaivém faz com que uns se obriguem a desfazer os laços, deixando saudade, e a outros não se dê tempo para os criar, para amaciar durezas, para embainhar a espada. Pergunto-me se haverá algum estudo manhoso de uma universidade qualquer do cu de Judas que tenha concluído o prejuízo causado pelas relações humanas à competitividade ou de como o crescimento de um país se faz à custa da solidão e do narcisismo, pois quanto mais desatentos ao outro, mais eficazes na corrida, mais força para a engrenagem.