2.3.16

Ainda não voltei, mas...

Parece-me óbvio o motivo pelo qual continuamos a festejar o 25 de abril como se ainda vivêssemos no dia seguinte. Porque, com efeito, não avançámos, não atravessámos a linha que nos separa definitivamente da vergonha do que já fizemos. A liberdade de expressão, por exemplo, está por realizar. Somos donos de uma moral castradora e acusatória, que nos impele a condenar publicamente, com insulto e ameaça, quem exprime pensamento que não caia no goto. Somos como o papá que dá um tabefe ao filho enquanto lhe diz não se bate nos outros! O direito a dizer o que se pensa tem sido comemorado com muita festarola, comes e bebes, ao jeito que gostamos, mas está longe de ser praticado com civismo. 
Incapazes de distinguir o trigo do joio, só olhamos de raspão e ouvimos por alto. É que o tempo não para e é implacável nas exigências. E então a gente, não podendo dar-se ao luxo de ficar para trás a ponderar, sob pena de nos julgarem sem opinião, recorre às estantes e às gavetas, onde se guarda o que já está devidamente nomeado e catalogado. Direita é direita. Esquerda é esquerda. Infiéis são infiéis. Mulheres são mulheres. Depressivos são depressivos. Cancerosos são cancerosos. Patrões são patrões. Sem-abrigo são sem-abrigo. Uns na ala das vítimas, outros na ala dos carrascos, dependendo de quem olha. Matem-se uns. Dê-se sopas e colinho a outros. Não há tonalidades de cinza. 
O país está a reduzir-se a uma praceta e a um pelourinho.