10.1.12

Vida eterna

Laura esteve sempre convencida que podia garantir a vida eterna do seu corpo comendo os tomates e as curgetes nas doses e às horas prescritas pelas revistas e pelos especialistas da televisão. Era natural que recusasse um convite para jantar em casa de amigos se a ementa incluísse um naco de carne vermelha assada cheia de antibióticos e substâncias tóxicas. Ao rigor nutricional acrescentava meia hora de corrida diária da qual nenhuma desgraça alheia podia demovê-la. E corria, corria contra a morte, a velhice, a gordura, a demência e a doença. Depois, no silêncio desumano da sua casa, via televisão à distância segura para evitar os males da vista e, por fim, descansava a cabeça no travesseiro concebido para prevenir os problemas cervicais. Na mornidão do leito onde se espraiava sem limites nem compromissos, libertava-se, doce e reconfortante, o aroma dos cremes que a livrariam da celulite e das estrias.
Para trabalhar dedicadamente na vida eterna, Laura teve que viver só, como vivem sós todos aqueles que trabalham a tempo inteiro para a posse do que a ninguém pertence. Por isso, quando a maldição começou a multiplicar-se silenciosa e traiçoeiramente num canto do seu corpo de fêmea, Laura achou que era tudo uma profunda ingratidão da natureza ou um grande mal-entendido com deus. Tinha, entretanto, dispensado os amigos que apareciam inoportunamente na hora da sua corrida diária e os que cozinhavam carne, e afastara ainda os que se deixavam engordar irresponsavelmente e as que sacrificavam a elegância para conceber e criar. Estava só, sem o retorno do investimento e com a angústia da mortalidade precoce. Nunca lhe passara pela cabeça que a única eternidade possível é a da memória. E não houve um raio de uma revista ou de um especialista que a avisasse disso.

* esta é mais uma obra da realidade. Qualquer semelhança com a ficção terá sido mera coincidência.