12.1.12

Poetas

O meu filho mais novo disse que as rosas cheiram a raparigas. Tem três anos. Foi uma rosa vermelha e viçosa que a florista lhe ofereceu, grata pelos minutos de boa prosa que tiveram enquanto ela preparava um ramo para oferta. Trocaram meia dúzia de impressões sobre os matizes e as texturas das flores e ela, vendo-o assim tão minúsculo e já a pasmar, rendido à beleza de coisas elementares, achou-lhe graça. Foi buscar uma rosa vermelha, aparou-lhe o pé, desbastou-lhe os excessos e estendeu-lha toma, por seres tão lindo. Ele agradeceu, pegou-a com os cuidados habituais, cheirou-a e disse: hummmmm.... a rosa cheira a rapariga... Um poema. Um poema dos sentidos. Um poema da memória. Coisas de criança, que é poeta por natureza, por lucidez de visão, por sentimento sem filtro, por simples verdade. Perde-se às vezes isso com o tempo, que o tempo impõe o sistema e o sistema impõe educação e a educação impõe limites e os limites impõem razão e a razão impõe quotidiano e o quotidiano impõe que não se seja poeta. A não ser que seja para vender livros.
Tem três anos. Não sei daqui a quantos, mas um dia, continue ele um poeta e há de chegar a casa e dizer-me, como quem confessa a descoberta essencial, mãe, afinal são as raparigas que cheiram a rosas. Ou talvez não, porque os filhos crescem e vão calando a sua intimidade diante dos pais. Talvez ele apenas chegue a casa e eu lhe diga filho, trazes cheiro a rosas. E ele, se continuar poeta, responder-me-á e ainda te lembras porquê?