18.1.12

O homem que mexe no dinheiro

Confesso que me entretém cada vez mais espalhar a dúvida e o desacato em consciência alheia quando estão em debate as ditas grandes questões da atualidade política, social e cultural. Vivesse eu no tempo da outra senhora e já teria sido eliminada há muito tempo. (Ou não. Talvez se eu vivesse no tempo da outra senhora fosse também eu outra senhora, uma verdadeira senhora, entretida a fazer compras de loja em loja, deitando conversa fora ao telefone, governando a casa com mãos de fada e educando os filhos para a obediência cega a entidades superiores e transcendentes.) Não há, contudo, qualquer ideal ou militância, de esquerda ou de direita, que me movam. Também nenhuma religião ou cartilha me impõem a palavra. Tenho só um vínculo à minha consciência social e humana, por tudo o que me é dado a ver ou a intuir neste mundo ao qual não me canso de tirar medidas.
Nada de grave ou preocupante para quem quer que seja. Sou perfeitamente inócua, porque ninguém dá crédito a uma mãe de filhos pequenos. Há, na mente das pessoas vulgares, incompatibilidades incontornáveis: ou se muda fraldas ou se pensa a humanidade; ou se embala ou se percebe alguma coisa deste mundo; ou uma coisa ou outra, nunca ambas, que os desafios da reflexão e do debate profundo não se compadecem com cheiro a produtos lácteos. Por isso o que digo vai valendo pouco. Às vezes acontece (porque acontece) o homem que mexe no dinheiro abrir a boca para concordar comigo e então todos arrebitam as orelhas e acalmam, pouco a pouco, a sua relutância em aceitar que tudo é muito mais do que aparenta. E nem percebem eles que, com esse simples baixar da guarda diante do homem que mexe no dinheiro, me dão a razão que em consciência não me reconhecem.