Desilude-me às vezes esta gente novinha. Não que eu seja velha, mas já tenho idade para os ter posto no mundo em gravidez precoce. Chegam com modernos e farfalhudos casacos, ponchos de lã de marcas decentes, camisolões, túnicas, botas de pelo, boinas e bonés com forros quentes e macios, luvas, cachecóis, um rol de roupa e calçado que não mais acaba em estilo e variedade, e vêm a tremer, queixando-se da inclemência deste frio ibérico, que, para mim, de tão brando chega a ser terno. A meio do dia, quando o sol explode a sul, queixam-se dessa luz que lhes fere os olhos e ainda da mornidão que garantem ser perigosa para a saúde. Se de manhã não se consegue trabalhar com o frio, à tarde não se consegue trabalhar com o sol. Parecem velhinhos. Frágeis, indefesos, de articulações com poderes adivinhatórios, brônquios delicados, testas vincadas pelo hábito de rejeitar a luz e estado de espírito dependente do estado do tempo. Devem ser filhos dessa geração de paranoicos que acreditam que os vírus chegam embalados nas correntes de ar, penetram, matreiros, pelas frinchas das janelas e proliferam, traiçoeiros, com os raios do sol de inverno. Um botão do casaco que fique, por descuido, desapertado e talvez um vírus especialmente astucioso possa entrar, de fininho, pelo intervalo aberto na fazenda. Com consequências mortais.
