12.12.11

maria das dores

A dor que te dói não é igual à que me dói a mim, é certo. Não posso, por isso, entender como te dói a tua dor, pois que não a vivi, nem tu poderás entender como dói a minha dor, pois que nunca a sentiste. Têm, contudo, as nossas dores semelhanças que as sintonizam, que as tornam próximas. São dores que não se veem por fora, não nos emagreceram, não nos branquearam cabelos, não nos enrijeceram os cantos da boca nem lhe cravaram sulcos de amargura. Não nos afastaram, como descrentes, do mundo em que vivemos. São dores que ficam caladas, afundadas, enterradas como raiz. São como uma fúria concêntrica, em remoinho, que não sai pelos dedos nem se vê nos olhos. Não têm cura nem alívio. Não se fala sobre elas. Não se escreve sobre elas. Não têm sujeito nem predicado, mais difícil é terem complementos diretos e indiretos. São dores caladas. Não se cruzam com o quotidiano. Quando acordam, não acordam finas e agudas de forma a saltarem à vista. Não gritam. Acordam grossas e opacas, com um rumor possante como o de um terramoto que tudo abala, tudo toma e tudo suga. E vão-se tal como vieram, até ao próximo assalto. No entretanto, deixam tudo em paz.
Não conheço a tua dor, mas conhecendo a minha, posso garantir-te que saberás viver com ela quando aceitares que é tua ao invés de a tentares enxotar ao pontapé. Não te preocupes, é seguro e eficaz. Nunca ouvi que se morresse de dor. Só do desespero de tentar fugir-lhe.