17.12.11

Credores

É curioso constatar até onde vai e por onde se fica a nossa generosidade. Vai longe, é verdade. Embarca em aviões, em forma de encomendas de livros e roupas que endereçamos a terras de fome e escassez. Vai pela internet, nas transferências de dinheiro que fazemos para o nib das boas causas que são mediatizadas. Vai nos blogues, nas páginas do facebook e nos e-mails onde assinamos o nosso nome defendendo fracos, oprimidos, doentes, injustiçados e abandonados. Vai em noites dedicadas a distribuir mantas e malgas de sopa pelos sem-abrigo que brotam, como ratazanas, das fendas invisíveis do centro da cidade. Vai em cêntimos arredondados na hora de pagar contas no supermercado e em outros tantos que tilintam em latas e chapéus de mendigos e cantadores. Vai tantas vezes em sangue que doamos e em orações que fazemos. Vai em sacas de roupa que já não serve ou medicamentos que sobraram. E que bom que tudo isso é. Mas a certa altura fica. Fica-se. Quando é altura de ser generoso com o que a vida nos reservou ou com quem nos magoou, a generosidade fica-se. Para nós a dor dos outros tem sempre remédio, estamos lá nós para a diminuir. É coisa pouca, toma-nos tempo ou trocos e pouco mais. Mas a nossa, oh, a nossa própria dorzinha é sempre tão tremenda, tão injusta, tão maior do que a dor outros, que não conseguimos cometer aquele que creio ser o maior e mais honesto ato de generosidade: perdoar. E às vezes falta-nos até a lucidez para perceber que quem nos causou a dor estava apenas a dar um safanão de desespero no nada ou a bater os pés para não se afundar e, por mero acaso, acertou-nos. Haja muitas iniciativas de solidariedade não só porque o mundo precisa, mas para continuarmos a lavar as nossas mãos e sacudirmos as poeirinhas incómodas da consciência. De noite, contudo, no sono profundo, hão de abrir-se as gavetas fechadas onde guardamos os papéis das contas que nunca saldamos por egoísmo, orgulho e arrogância. Por presumirmos que somos sempre credores.