12.12.11

Atitudes

"Atitude" era uma palavra que eu respeitava muito. Usava-se de vez em quando, apenas quando a importância do momento exigia termos à altura, não andava aí ao desbarato como agora. Lembro-me de a minha mãe a usar quando o meu comportamento a desiludia demasiado ou quando estava diante de uma situação que a desagradava e que era preciso resolver. Ganhava um tom sério e austero e dizia: "se isto continua assim é preciso tomar uma atitude". A minha mãe era pessoa de um humor quente. Passassem por ela todos os dramas da vida e ela continuaria sorrindo e apurando as suas piadas e ironias, acordando-me com cócegas e beijos, numa tolerância e generosidade permanentes diante das coisas que corressem menos bem e diante daqueles que se comportassem menos bem. Ora assim sendo, se acaso o rosto da minha mãe assumisse subitamente traços de gravidade e ela dissesse que tinha de tomar uma atitude, "atitude" só poderia ser coisa igualmente grave. Atitude teria de ser uma reviravolta, uma decisão que mudasse o rumo das coisas, que impossibilitasse a repetição de um erro. Tomar uma atitude não seria portanto coisa para todos, seria coisa para os decididos e corajosos. Para mim, uma atitude abalaria estruturas. Coisa de revolução, por exemplo. Para o bem e para o mal, porque também havia os casos de pessoas que tinham tido atitudes menos próprias, atitudes condenáveis. Num ou noutro caso, atitude era sempre um ato, uma ação. Pasmo agora, por isso, quando vejo aquilo em que a atitude se tornou. Começou tudo com a publicidade, apareceram de repente, não sei de onde, bebidas com atitude, perfumes com atitude, bicicletas com atitude, sapatos com atitude, batatas fritas com atitude, carros com atitude, cuecas com atitude. E, como toda a gente sabe ou devia saber, palavra que se torne comum na publicidade perde toda a sua significância e o seu conteúdo e passa a ser aquilo que cada um quiser ver, à luz dos seus sonhos e das suas aspirações. Da publicidade, a atitude passou à esfera da autoajuda e dos bons conselhos de vida que as revistas sexuadas e os debates de televisão semeiam nas nossas cabecinhas. Tenha atitude. Regresse ao trabalho com atitude. Encare uma nova relação com atitude. Conviva com os seus amigos com atitude. Enfrente o divórcio com atitude. Viva o sexo com atitude. Desfia-se a seguir uma lista de dicas e conselhos úteis para quem quer ter atitude que podem passar por coisas tão extraordinárias como a escolha de uma boa lingerie ou a psicologia de trazer por casa, que reza coisas como seja frontal e verá que, por mais que lhe custe os outros olharão para si como uma pessoa segura, com autoestima e, portanto, digna da máxima confiança. Não se espante se de repente se se aperceber que as suas colegas de trabalho a veem como a melhor amiga e os colegas como a mulher de sonho. Ter atitude compensa.
E as atitudes, que para mim eram coisas que se tomavam de forma ponderada e em situações de emergência, para além de terem abandonado a sua forma plural e serem agora apenas "atitude", ganharam o cheiro nauseabundo das multidões, dos acéfalos, das massas que se arrastam em movimento homogéneo para onde houver uma mãozinha a acenar. Já não vejo ninguém a tomar uma atitude, mas antes a ser tomado pela atitude. E de golada.